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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Comunicar...


“Assim, a origem da filosofia é o espanto, a dúvida e a experiência das situações limite; mas, em último lugar e incluindo todas estas motivações, é a vontade de autêntica comunicação. Isto revela-se logo de princípio pelo facto de toda a filosofia ansiar pela participação, exprimir-se, pretender ser ouvida; essencialmente é a própria comunicabilidade que está indissoluvelmente ligada à verdade. Na comunicação, a filosofia alcança a sua finalidade, o fundamento e o sentido último de todos os fins: a apreensão do ser, a claridade do amor, a plenitude da paz.” 

Karl Jaspers, Iniciação Filosófica

Construir um pensamento filosófico...

Como se obtém a capacidade de construir um pensamento e interrogar o que nos rodeia? É possível nascer como filósofo ou aprende-se com o tempo, com o que estudamos, com a experiência do que vamos tendo na vida? Se todos poderemos ser filósofos, porque alguns deixam de o ser ao longo da vida? Michel Onfray dá-nos algumas pistas.
 Vejamos o que ele nos diz nesta entrevista:

Penso realmente que nós nascemos filósofos e só alguns o continuam a ser. Há uma grande razão nas crianças que perguntam "porquê". Querem saber. Por que é que a noite é negra, por que é que a água molha, ou por que é que as pessoas morrem. As crianças colocam grandes questões de Ontologia, de Metafísica, de Filosofia. 

E muitas vezes os pais renunciam a responder porque não têm, forçosamente, os meios intelectuais, ou o tempo. Por vezes dizemos: não sei, mas vamos encontrar numa biblioteca, vamos procurar num livro. Depois, há um momento, em que as pessoas acabam por renunciar a responder às questões. E desde que se entra na escola, pede-se que cada um responda a questões que nunca nos foram colocadas.

E dizem-nos: agora, se quiseres ser um bom aluno deves saber qual é o PIB de um país qualquer. Naturalmente ninguém é levado a colocar-se essa questão. Aprendemos na escola, coisas muitas vezes, pouco significativas. Dizem-vos: as questões que te colocaste cessa de as colocar. Em troca aprende as respostas a questões que tu raramente te colocas. 

Efetivamente isso desespera um certo número de indivíduos e alguns resistem a isso. E esses que resistem a isso, dizem: 
- Eu persisto com as minhas questões, eu quero as minhas respostas. Vou procurá-las. Ora bem, esses são os naturais filósofos. E de seguida, podem tornar-se filósofos de profissão porque terão aprendido na Universidade. E colocarão as questões, quem pensou o quê, quando, como, de que forma. E depois disso, um dia talvez, uma destas pessoas que exerceu o pensamento, que se questionou possa escrever livros de Filosofia, possa ser um Filósofo no sentido académico porque se pôs a questão fundamental: o questionamento do sentido da vida.

Michel Onfray, La Grande Librairie. Magazine Littéraire. TV5. 2013.
Imagem, O pensador de Rodin. 

sábado, 24 de outubro de 2015

O que é a Filosofia?

A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.
A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o tempo?». Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?». Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra significar qualquer coisa?» Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: «O que torna uma ação certa ou errada?»
Não poderíamos viver sem tomarmos como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado, a maior parte do tempo, mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objetivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias que tentamos investigar, menos instrumentos temos para nos ajudarem. Não há muitas coisas que possamos assumir como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso, a filosofia é uma atividade de certa forma vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo.
Thomas NAGEL. (1997). Que quer dizer tudo isto? uma iniciação à Filosofia. Lisboa: Gradiva, p. 8-9.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Pensar ... questionar ... compreender...

"Não tenha medo de começar a pôr questões e a formar conclusões provisórias à medida que lê. Mas note: provisórias. O que quer que faça, não se deixe agarrar pela mais preguiçosa e complacente das atitudes, a de que “todos têm direito à sua própria opinião”. Adquirir direitos não é assim tão simples.
Tenha antes em mente o comentário irónico de George Berkeley (1685-1753): “Poucos são os homens que pensam, mas todos têm opiniões.” Se é verdade é uma pena, por uma razão: pensar é parte da diversão".
 Edward CRAIG, 2002.