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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Como comentar um texto em Filosofia

           
Eis um pequeno excerto de um texto filosófico:
“O homem é homem só pela linguagem. Unicamente pela  linguagem chega o homem a tornar-se  consciente do seu mundo. A palavra não faz da realidade o nosso mundo. A palavra caracteriza o seu  modo de existência. Com as palavras, o homem vincula-se às coisas, (…) mas também se distancia delas (…) e atribui-lhes significação” E. Cassirer
Como se faz um comentário?
Há muitas técnicas possíveis para estruturar um “comentário de texto”.  Na disciplina de Português é usual serem estudadas várias dessas técnicas. Em filosofia, tal técnica tem enorme importância e uma vez que não as vamos estudar todas, optamos por uma adaptação daquela que é sugerida por Jacqueline Russ, no livro “Les méthodes en philosophie”:
1. Tema abordado no texto a comentar
2. Problema filosófico a que o autor procura responder
3. Posição do autor (tese) sobre esse problema
4. Justificações (argumentos)  apresentadas no texto  para defender essa posição
5. Explicitação dos conceitos usados pelo autor (implica recorrer aos conhecimentos estudados)
6. Eventuais problemas, dúvidas ou objecções que a posição do autor levante (opinião pessoal do aluno, racionalmente fundamentada)
Assim, no caso do texto presente nesta questão, poderíamos elaborar um comentário obedecendo a esta estrutura:

1. O  excerto apresentado refere-se  à importância antropológica da linguagem.
2 . O autor depara-se com um problema filosófico fundamental, que é o de saber o que é o Homem e qual a importância da linguagem na sua definição.

3. Segundo o autor, o Homem só é Homem pela linguagem, pois
4. (i) é a linguagem que caracteriza o seu modo de ser,
     (ii) é pela linguagem que o Homem se torna consciente do seu próprio mundo     
  (iii) é a linguagem que permite ao Homem um distanciamento face ao mundo, atribuindo-lhe significação.

5. Esta palavras do autor significam que
   (i) só o Homem possui uma linguagem deste tipo – uma linguagem simbólica, que lhe permite a referência a objectos ausentes e não materializáveis: o animal não possui essa capacidade de referência à realidade, pelo que a linguagem é o traço distintivo entre o Homem e o animal. Por outro lado,
   (ii) esse tipo de linguagem a que o ser humano tem acesso permite-lhe perceber as causas e as consequências dos seus actos: o Homem tem consciência de si mesmo, tem, consciência do que faz – porque faz e para que faz. Ao animal, pelo carácter concreto da sua linguagem, essa tomada de consciência é totalmente inacessível, pois só pode referir-se a situações presentes: nenhum animal reflecte sobre o passado ou projecta o  futuro, coisa que o ser humano é capaz de fazer. Em último lugar,
  (iii) há que referir que  é através da linguagem que, pelo poder da simbolização, o Homem se afasta da realidade, no sentido em que não precisa de ter a realidade a que se refere presente perante os seus olhos, pois o carácter abstracto e simbólico da sua linguagem permite a construção de um conhecimento teórico e não meramente prático sobre a realidade: o ser humano constrói diversas formas de conhecimento sobre a realidade, apoiando-se na linguagem como estrutura de um discurso racional ou afectivo sobre o mundo que o rodeia.

6. Pessoalmente, a) concordo…  /  b) não concordo…
a) … concordo com o autor pois, como já foi referido na resposta anterior, existem diversos traços distintivos entre a linguagem humana e a linguagem animal, pelo que a linguagem será, seguramente, uma forma possível de designar o que é o Homem, pois trata-se de uma capacidade especificamente humana. Repare-se, por exemplo, que das várias funções inerentes à linguagem, os animais são incapazes de possuírem uma função metalinguística, isto é, a referência linguística ao próprio código: esse é um território exclusivamente humano.  Ainda assim, podem surgir algumas dúvidas/interrogações/problemas a que este excerto não responde, tais como: se descobrirmos que essa distinção linguística não é tão evidente, teremos de mudar a nossa própria concepção do que é o ser humano? Se a capacidade simbólica for exclusiva do ser humano, que reacção teremos perante um ser humano (por exemplo, um microcefálico) que não possui essa capacidade? Essas são questões a que o texto não  permite responder.

b) … não concordo com o autor, pois nem sempre a linguagem simbólica é exclusiva do ser humano: estudos com chimpanzés vieram levantar a questão de saber se alguns animais, nomeadamente os primatas superiores, poderão (ou não) aprender em contacto com os humanos a utilizar uma linguagem gestual, dado que não possuem cordas vocais semelhantes às humanas. A ser assim, a linguagem deixaria de ter  o papel fulcral na distinção Homem/animal, deitando por terra a opinião do autor.

   Professora de Filosofia Isabel Nunes de Sousa ( Grupo de Filosofia da Escola Secundária Rainha D. Amélia) 

Como elaborar um tema de desenvolvimento

Como elaborar um Tema de Desenvolvimento em Filosofia – resposta extensa

O texto-base da filosofia é um texto argumentativo, logo, o tema de desenvolvimento deve sê-lo também. No fundo é um pequeno ensaio onde vamos apresentar algumas ideias e pô-las à prova da nossa razão para ver se são defensáveis e se fazem sentido.
     Estrutura:
  1. Breve apresentação do problema a tratar. Por exº : Vou discutir o problema – Terá a existência humana um sentido? 
  2. Explicitação do problema e as áreas da filosofia que lhe poderão dar resposta, enunciação de algumas teorias defensáveis, atendendo a certas condições, e quais poderão ser essas condições. Enunciar uma em particular, se for o caso. Exº A vida humana deve ser entendida como uma finalidade orientada por valores, nomeadamente, uma finalidade última, rementendo para a divindade - Deus- fundamento de toda a realidade e todos os seres. Neste sentido a questão existencial estará ligada com a metafísica e a religião. Pode-se também confrontar duas perspetivas, a religiosa (Kierkeggaard) e a ateia, uma defendendo claramente um sentido e outra, nomeadamente a perspetiva de Camus, de que a vida não tem sentido porque nos confrontamos com o absurdo.
Desenvolvimento: ( ANÁLISE CONCEPTUAL)

3.  Análise mais detalhada dos conceitos ou categorias que permitem explicitar e analisar o problema. Aqui enunciamos as várias posições que sustentam os vários pontos de vista com base nos argumentos de cada filósofo ou corrente. No caso do sentido da vida, temos que mostrar que a perspetiva religiosa se apoia numa posição essencialista e transcendente, remetendo para fundamentos metafísicos, enquanto a perspetiva ateia de Camus se apoia numa perspetiva existencialista mais confrontada com situações-limite: o sofrimento, a morte, o absurdo etc… O aluno deve analisar estas categorias ou conceitos.
4.   Pode-se também enunciar os contra-argumentos que podem reforçar a posição a defender ou tão somente mostrar objeções ao tema em análise.


Conclusão:
  Tirar algumas conclusões sobre o que se discutiu e dar uma perspectiva da posição defendida. Por exemplo, porque a consideramos mais plausível e quais os pontos fortes dessa perspetiva. Mostrar como esse problema/questão é importante para a filosofia e para a nossa vida. Por exemplo, a resposta a este problema pode dar-nos uma perspetiva abrangente da vida, em termos teóricos e existenciais, basta ver o exemplo de Sócrates, que foi capaz de morrer pelos seus ideais, pois acreditava numa vida para além da morte. Para ele “filosofar era aprender a morrer” sabendo viver uma vida com sentido, isto é, cumprida. Pode-se também enunciar uma breve perspetiva pessoal que deve ser sempre fundamentada.
 O aluno pode apresentar-se como católico e testemunhar pela fé a importância que ela tem na sua vida.
  
    A Professora de Filosofia
   Isabel Nunes de Sousa

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

COMO LER UM TEXTO EM FILOSOFIA

Tópicos:

-Através do título ou outra indicação ter uma noção mínima do tema do texto que se vai ler(ler o texto na íntegra);
-Esclarecer o sentido de palavras desconhecidas,especialmente se pertencem à terminologia filosófica;
-Ver o seu significado num  dicionário de filosofia;
-Identificar o conceito mais importante e assinalar os parágrafos onde é definido ou tematizado;
-Escrever os argumentos do(s) autor/es;
-Comparar perspectivas diferentes quando estão explícitas ou implícitas;
-Tirar ilações e conclusões fundamentadas(essencial é mostrar como se chegou a essa ideia).

Organização interna do texto e tipo de textos filosóficos:

- O texto é informativo,argumentativo,problematizador,aporético? etc…
- O texto apresenta uma tese central e depois aduz argumentos para o fundamentar;
- O texto apresenta várias ideias problemáticas e discute-as segundo vários autores;
- O texto é uma proposta de reflexão sobre um tema/problema.

Trabalho sobre um texto filosófico:
- Ver o tipo de texto;
- Trabalhar as suas ideias-chave;
- Destacar argumentos ou ideias que premitam caracterizar corretamente o assunto/tema em análise;
- No caso de haver vários autores/perspetivas diferentes indicar o seu contributo para a questão analisada;
-Fazer resumo ou síntese do texto;
- Esclarecer o alcance comparativo e/ou problemático das perspetivas apresentadas;
- Ser capaz de se posicionar face ao texto: apropiação pessoal e postura crítica.


Professora de Filosofia Isabel Nunes de Sousa ( Grupo de Filosofia da Escola Secundária Rainha D. Amélia)