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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A alegoria da Caverna

A “Alegoria da Caverna”, também conhecida como “Parábola da Caverna”, “Mito da Caverna” ou “Prisioneiros da Caverna”, foi escrita pelo filósofo grego Platão e encontra-se na obra intitulada “A República (Livro VII)”.

É considerada uma das mais importantes alegorias da história da Filosofia. Através desta metáfora é possível conhecer uma importante teoria platónica: através do conhecimento, é possível compreender a existência de um mundo sensível (conhecido através dos sentidos) e de um mundo inteligível (conhecido somente através da razão).

Platão narra a alegoria numa forma de diálogo entre Sócrates e Glauco (seu irmão), sendo Sócrates o mestre e Glauco o seu discípulo. A história narra a vida de uns homens que nasceram e cresceram dentro de uma caverna, presos pelos pés e pescoços, ficando assim voltados para o fundo desta sem que se pudessem virar. Contemplavam apenas uma de luz que reflectia sombras na parede. Esse era o seu mundo. Certo dia, um dos “prisioneiros” soltou-se e saiu da caverna. No início, ficou cego devido à claridade da luz mas, aos poucos, vislumbrou outro mundo com natureza, cores e “imagens” diferentes do que estava acostumado a “ver”. Voltou à caverna para contar aos seus amigos o “mundo novo” que descobrira, mas eles não acreditaram nele e revoltados, acabam por matá-lo.

O mito da caverna é uma metáfora que representa a percepção que o homem tem do mundo e a forma como o entende, diferente da realidade.

Com esta alegoria, Platão pretende criar dois mundos distintos (dualismo cosmológico), o mundo sensível e o mundo inteligível. No mundo sensível, a nível do ser (nível ontológico), estão incluídos os seres vivos (zoa) e as imagens (eikones), a nível do conhecer (nível gnosiológico-epistemológico) domina a opinião-ilusão acerca do mundo (doxa) e estão incluídos a crença verdadeira e a ilusão (pistis e eikasia), é neste mundo que a maior parte da humanidade se encontra, na ignorância; no mundo inteligível, a nível ontológico estão incluídas as ideias-essências (noeta superiores) e as ciências particulares (noeta inferiores), a nível do conhecer, domina o conhecimento verdadeiro (epistemê), onde estão incluídos a contemplação (noesis) e a razão discensiva (dianoia). Isto, no que diz respeito à importância do conhecimento e à educação como forma de superar a ignorância, isto é, a passagem gradual do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que procura as respostas não no acaso, mas na causalidade.

Como Platão criou uma metáfora, cada elemento desta história tem um significado. A caverna representa o mundo sensível e assim os prisioneiros que vivem dentro dela representam a condição humana, uma vez que a maior parte da humanidade vive na ignorância, ignorância esta representada pela escuridão. A confusão criada pelas sombras/objectos pretende representar a indistinção da realidade.

No início da saída do mundo sensível, existe uma força dos hábitos adquiridos, ou seja, “o prisioneiro tem dificuldade em olhar a luz e os objectos”. Existe uma progressiva eliminação dos preconceitos que, seria a razão que impossibilitava a entrada no “novo mundo”, em conjunto com o espanto filosófico.

À entrada do mundo inteligível o “prisioneiro” consegue contemplar a luz do sol, ou seja, adquire um conhecimento da verdade e compara o mundo exterior com o que vivia na caverna, com isto pratica um trabalho de análise, tomando consciência do modo de ser, da situação vivida na caverna, aqui o prisioneiro passa a filósofo e sente o dever de contar a verdade (risco do filósofo) e ajudar a libertar o resto dos prisioneiros da sua ignorância.
Segundo Platão os humanos (prisioneiros) vivem num estado de inconsciência causada pela ignorância, onde apenas uma minoria consegue libertar-se e aceder à Sabedoria através da Filosofia. Assim a Filosofia ensina-nos a lançar a dúvida sobre o que pensamos ser verdadeiro e exige que avaliemos os nossos preconceitos e as nossas crenças. Ajuda-nos a aprender a ver a realidade de uma nova perspectiva, a libertar-nos do falso-saber, a ser autónomos (pensar por nós próprios) e a alcançar a liberdade através do saber.

"A caverna corresponde ao mundo do visível e o Sol é o fogo cuja luz s projecta dentro dela. A ascensão para o alto e a contemplação do mundo superior é o símbolo do caminho da alma em direcção ao mundo inteligível. É com a sua "esperança" pessoal que Sócrates (...) apresenta isto. (...).O conceito de esperança é aqui empregado com especial referência à expectativa que o iniciado nos mistérios experimenta em relação ao além. A ideia da passagem do terrestre à outra vida é aqui transladada à passagem da alma do reino visível ao reino invisível. O conhecimento do verdadeiro Ser representa ainda a passagem do temporal ao eterno. A última coisa que na região do conhecimento puro a alma aprende a ver, "com esforço", é a ideia de Bem. Mas, uma vez que aprende a vê-la, necessariamente tem de chegar à conclusão de que esta ideia é a causa de tudo quanto no mundo existe de belo e de justo, e de que forçosamente a deve ter contemplado quem quiser agir racionalmente tanto na vida privada como na pública. (...)

A alegoria da caverna é "uma alegoria da paideia (cultura). (...) Uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura". 
-JAEGER, Werner –Paideia. A Formação do Homem Grego

É perfeitamente possível relacionar a filosofia platónica, sobretudo o mito da caverna, com nossa realidade actual. A partir desta leitura, é possível fazer uma reflexão e recuperar valores extremamente importantes para a Filosofia. Além disso, ajuda a formular o raciocínio crítico e é um óptimo exercício de interpretação. Existe uma grande relevância e actualidade relativamente a esta alegoria: muitas informações mostram a alienação humana e mostram que os homens vivem e criam realidades paralelas. O Mito da Caverna é um convite permanente à reflexão. 

Beatriz Monteiro, Nº3, 10ºC3

domingo, 29 de novembro de 2015

Vergílio Ferreira - Pensar ou não Pensar? (V)

Este texto de Vergílio Ferreira combina ironia com metáforas formando um excerto sobre a arte de pensar e os próprios pensadores.

 Este autor simboliza o pensamento e o ato de pensar na sua integridade e complexidade. Na opinião deste tão célebre escritor, a mentalidade da sociedade neste século e também um pouco no século passado tem decaído acentuadamente deixando as pessoas mais incultas e com incapacidade de pensar em soluções para os atuais problemas sociais. Devido à maneira de ver o mundo, de vários países, e a falta de educação em certas partes do globo,   debatemo-nos com as consequências graves deste século. Como, por exemplo, os ataques terroristas que são uma prova de ignorância profunda das desumanas almas capazes destas atrocidades, como matar pessoas sem razão. Por este exemplo, e por muitos mais tão graves, concordo com a frase sarcástica de Vergílio Ferreira, "Sugeria alguém que se suprimisse a filosofia dos curso dos liceus”!

Parecendo que não o liceu faz parte de uma das fases mais importantes da vida, pela qual passamos. São três anos sem os quais não conseguiríamos viver equilibradamente o nosso destino. Sendo estes anos tão importantes devido à inocência e às influências exercidos sobre muitos dos jovens de hoje em dia, a filosofia desempenha um “papel insubstituível”.
Esta disciplina ensina-nos a compreender o mundo em todas as suas vertentes, todos os pontos de vista e até os pensamentos que lhes deram origem. Mas será que, como no exemplo referido a cima, os terroristas só cometem tão horrendas ações devido à falta de estudos ou consciência? Ou será também devido ao ambiente em que nasceram e cresceram?

Esta pergunta leva-nos ao próximo texto “a Alegoria da Caverna”. Outro texto indispensável a um aspirante de qualquer disciplina. Este tão célebre diálogo entre Glauco e Sócrates, direciona a visão do leitor para a nossa fragilidade e para como somos seres de hábitos. Mostra também que nos habituamos às condições em que vivemos mesmo que sejam muito precárias, ou demasiado luxuosas, esquecendo-nos muitas vezes que vivemos num mundo ilusório que não nos leva ao principal objetivo do ser humano, que desde que nasceu, é ser verdadeiramente feliz. No entanto, a maioria dos homens não se questiona sobre o verdadeiro sentido da vida que leva à felicidade. 

Sendo assim encontramos as palavras que unem estes textos entre si, “ O Homem” e a educação do mesmo. Também conseguimos concluir que não é só devido ao ensino ou à falta dele que somos como somos, mas também depende das condições em que vivemos e dos desafios que nos colocamos. Chegamos a esta conclusão mesmo sabendo que a verdade não é constante nem aceitável a todos, sendo os que se esforçam mais para chegar a esta são os filósofos. 

A filosofia encaminha-nos a uma descoberta da sabedoria, que nos permite compreender o mundo em que vivemos, o sentido da realidade, como viver uma vida plena e digna, sobretudo, aprender a conhecermo-nos a nós mesmos. Só assim, a Humanidade pode construir um mundo espiritual onde seja possível viver com os outros seres em total respeito e procurando construir um Mundo Melhor.   - Madalena Rosa 10º C 1 nº 13

sábado, 28 de novembro de 2015

A alegoria da Caverna


 A Alegoria da Caverna é um texto da autoria de Platão, cujo principal objectivo é educar as pessoas, mostrando, simultaneamente, a importância da Filosofia.
Este texto é, como a maioria dos textos do filósofo, de natureza dialógica, em que um ser superior, neste caso Sócrates, vai fazendo perguntas a outro ser, este menos sábio, aceitando todas as suas respostas de forma a chegar a um ponto em que este perceba as contradições admitidas na sua mente, revelando a sua ignorância.

A obra, em si, fala-nos de uns homens que vivem numa caverna, que possui uma entrada, virada para a luz, da qual se sai escalando um caminho íngreme que sobe. Esses homens estão no interior da caverna desde a sua infância, acorrentados e sem se poderem mexer, nem sequer trocar de posição ou voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles e a que sempre estiveram habituados a acreditar.
Nessa caverna há também uma fogueira, cujo papel é refletir tudo o que se passa no exterior, sob a forma de sombras. Essas sombras correspondem à única coisa que os prisioneiros vêem, uma simples reflexão da realidade.

Ora, certo dia, um desses prisioneiros é libertado, e dirige-se para a entada, de onde vem a luz. Tudo aquilo é novo para ele, uma vez que desde pequeno se habituou ao escuro.
Percorre então o caminho que sobe, chegando ao exterior da caverna. Depois de uns minutos necessários para se habituar, o  homem (que a partir do momento que se soltou já não pode ser mais chamado de prisioneiro) começou a observar o que até então tinha dado origens às sombras. Descobriu então as Formas ou Ideias, distinguindo-as dos vultos escuros que sempre lhe fizeram companhia.

Esse homem começou, pois, a questionar-se sobre o que via, sobre a verdadeira essência das coisas.
Então, movido por uma certa compaixão pelos seus “colegas de cela”, voltou ao interior da caverna, com o objectivo de contar o que vira, levando os outros na mesma viagem.
Porém, os planos não correram como planeados, pois quando contou aos outros sobre o que vira e descobrira, estes não acreditaram e mataram-no, só por  ele pensar de forma diferente.
Isto é muito semelhante ao que aconteceu a Sócrates, que foi morto pelos Sofistas, uma vez que punha em causa os seus métodos  de ensino e forma de pensar. (Na realidade, todas as obras de Platão relatam o que aconteceu com Sócrates, uma vez que, na opinião do autor, este era um dos maiores sábios que alguma vez existira e que ser condenado à morte foi a maior «injustiça» de sempre.)

Após a leitura desta obra, percebemos que estamos perante uma alegoria, em que a ignorância é representada pela caverna e a sabedoria pelo Sol. Os prisioneiros representam a humanidade, que vive na ignorância, presa às ideias pré-existentes.  Quando alguém se dispõe a sair desse estado, encontra-se com o “caminho que sobe”, que representa a transição entre dois mundos: o sensível (sombras, ignorância) e o inteligível (ideias, sabedoria) e pressupõe uma ascese por graus- a dialética.
Depois da ascese, isto é, a ascensão de um mundo para outro, devemos começar a procurar saber e a utilizar esse saber para procurar ainda mais saber. A isso se chama sabedoria e assim se formam os filósofos.

Outra das ideias principais deste texto, é mostrar que o tempo é limitado, e que não temos a eternidade para aprender. Isso é representado pelos prisioneiros que estão presos desde a infância, até à morte do sábio - Sócrates. Outro aspeto muito importante da obra são os problemas que levanta. Fazendo uma sequência cronológica resumida, podemos apresentá-los da seguinte forma:
  1. O que é a condição Humana?  (antropologia)
  2. A educação dos jovens: papel que a filosofia e o filósofo têm na educação ( questão social e política)
  3. O que é a verdade? O que é o verdadeiro saber/ conhecimento? (gnosiologia/epistemologia- nesta época ainda não era feita a distinção entre filosofia e ciência)
  4. Qual a verdadeira realidade/essência? (metafísica)
  5. Qual o sentido da vida? O que é a Morte? (sentido cíclico da vida, acreditando-se na teoria da reencarnação, ou seja, que o corpo morria, mas a alma continuava viva, apenas manifestando-se noutra forma física)
A partir daqui podemos determinar uma característica de Platão, a que chamamos dualismo. Encontramos vários tipos de dualismo na Alegoria da Caverna, onde podemos salientar:
  • O dualismo Antropológico: O Corpo e a Alma (Nous) são muito distintos. O primeiro corresponde a um estado provisório, que acaba na morte; enquanto o segundo corresponde ao centro ético onde se encontram as actividades intelectuais, necessárias à realização da ascese (vista como uma purificação, salvação, correspondente à sabedoria máxima).
  • O dualismo Cosmológico: Referente aos dois mundos, o sensível, que engloba as sombras e a ignorância, directamente ligado ao corpo, e o inteligível, o das formas ou ideias que constituem a realidade, que estabelece ligação com a alma.
  • O dualismo Ontológico (dos seres/ do ser): Onde se distinguem as Sombras e as Ideias
  • O dualismo Gnosiológico/epistemológico: (conhecer/conhecimento): Revelando a oposição entre doxa (ilusão/opinião) e episteme (conhecimento verdadeiro). 

Podemos representar isto acima descrito num único esquema, denominado diagrama da Linha:



Desta maneira, Platão pretende educar as pessoas, levando-as a sair da caverna e a explorar o mundo exterior. É pela educação, pela filosofia que o homem se liberta e ascende a outra dimensão, a dimensão espiritual.

Catarina Ventura Nº6 10ºC1

Alegoria da Caverna - Comentário

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Cinema Paraíso - Uma alegoria da caverna contemporânea?

Cinema Paraíso é um dos filmes marcantes do século XX por diferentes razões. Filme de 1989 com realização de Giuseppe Tornatore, tornou-se um ícone sobre o papel do cinema e das imagens. Nostalgia de um tempo de quase inocência, de olhar o mundo que chega em flashes de fitas projetadas num cinema de uma pequena cidade italiana no pós segunda guerra mundial. 

É um filme sobre a nossa desventura de principiantes, de um mundo que pouco conhecemos e da aspiração de participar numa forma de aprendizagem pelas imagens. Salvatore, um jovem cineasta tendo conhecimento da morte de um amigo relembra a sua infância e o tempo que passou numa sala de projeção do cinema da sua pequena vila, Cinema Paraíso

Memória de uma infância e da fantasia que as imagens ajudaram a construir num tempo de profunda carência económica. Totto é essa criança que gostava especialmente das imagens projetadas, mas que dá esse salto do espetador para condutor, animador dessas imagens que fascinam todos. A sua ligação à alegoria da caverna de Platão é de grande significado.

A alegoria da caverna de Platão ilustra a forma limitada da existência humana, que se relaciona no seu real com a apreensão de sombras, não descortinando a realidade na sua essência. A vida precisa dessa busca pela desocultação das sombras, de modo a aceder a um mais profundo conhecimento da existência. Cinema Paraíso coloca-nos numa sociedade contemporânea algumas destas questões.

Cinema Paraíso é uma sala que funciona como uma caverna, pois os espetadores acedem a imagens de um real projetado. Nessas imagens se constrõem comportamentos e modelos sociais e culturais. A criança percebe que por detrás das imagens há uma técnica, há um equipamento que permite descortinar sombras, compreender o processo. Este alargamento para fora da "caverna" dá-se com a aprendizagem da passagem das bobines, mas também com a saída da vila e o alargamento de possibilidades de conhecimentos e de afetos.

Cinema Paraíso coloca-nos sobre uma abordagem contemporânea da alegoria da caverna de Platão, pois conduz uma narrativa de compreensão do mundo pelas imagens, num espaço ritualizado de valores e comportamentos. O sentido de evolução do filme, a dificuldade de adaptação das personagens envelhecidas num mundo global transmite-nos uma ideia final. As imagens revelaram uma parte da realidade e não inseriam os seus espetadores numa real transformação do mundo. As sombras permanecem.

Luís Campos (Biblioteca)

A alegoria da caverna

A ALEGORIA DA CAVERNA   
SÓCRATES: Imagina homens que vivem numa espécie de morada subterrânea em forma de caverna. A entrada abre para a luz, em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz vem-lhes de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagina que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetas dispõem entreeles e o público, acima do qual manobram as marionetas e apresentam o espectáculo.

GLAUCO: Entendo.
SÓCRATES: Então, ao longo desse pequeno muro, imagina homens que carregam todo o tipo de objectos fabricados, ultrapassando a altura do muro, estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros não.

GLAUCO: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!
SÓCRATES: Eles são semelhantes a nós. Primeiro pensa se, na situação deles, eles terão visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos, que o fogo projecta na parede da caverna à sua frente?

GLAUCO: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?
SÓCRATES: Não acontece o mesmo com os objectos que desfilam? 

GLAUCO: É claro.
SÓCRATES: Então, se eles pudessem conversar, não achas que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais? 

GLAUCO: Evidentemente. 
SÓCRATES: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não achas que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

GLAUCO: Sim, por Zeus.
SÓCRATES: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objectos fabricados. 

GLAUCO: Não poderiam ser de outra forma.
SÓCRATES: Vê agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados da sua ignorância. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objectos, dos quais via apenas as sombras, anteriormente. Na tua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para os objectos mais reais, e que ele está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objectos que desfilam, obrigando-o, com perguntas, a dizer o que são? Não pensas que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objectos que lhe mostram agora?

GLAUCO: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.
SÓCRATES: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não pensas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

GLAUCO: Sem dúvida alguma.
SÓCRATES: E se o tirassem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do Sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objectos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

GLAUCO: Ele não poderia vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.
SÓCRATES: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objectos reflectidos na água, depois os próprios objectos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da Lua, mais facilmente que durante o dia para o Sol e para a luz do Sol.

GLAUCO: Sem dúvida.
SÓCRATES: Finalmente, ele poderá contemplar o Sol, não o seu reflexo nas águas ou noutra superfície lisa, mas o próprio Sol, o Sol tal como ele é.

GLAUCO: Certamente.
SÓCRATES: Depois disso, ele poderá raciocinar a respeito do Sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que ele governa tudo no mundo visível, e que ele é, de algum modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.
SÓCRATES: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não achas que ele ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

GLAUCO: Claro que sim.
SÓCRATES: Quanto às honras e aos louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exactidão daquelas que precedem outras ou que lhes sucedem e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjecturar a que viria depois, achas que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria, antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um pobre” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?

GLAUCO: concordo contigo. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.
SÓCRATES: Reflecte ainda nisso: supõe que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir directamente do Sol?

GLAUCO: Naturalmente.
SÓCRATES: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, quando seus olhos não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, acreditas que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

GLAUCO: Sem dúvida alguma, eles o matariam.
SÓCRATES: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exactamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à acção do Sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso, eis o que me parece, tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível, aparece-me a ideia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de justo e de belo. No mundo visível, ela gera a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

GLAUCO: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.

Platão, A República, Livro VII.