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quarta-feira, 14 de junho de 2017

A representação do belo - [II]


Quando pensamos em belo sabemos que nele, como tudo o que envolve a vida humana é relativa aos tempos sociais e culturais. O que hoje achamos belo amanhã muda de sentido, pois os códigos de beleza alteram-se. E, no entanto ao olharmos para a Vénus de Milo, ou o Discóbolo de Mirone, expressões de séculos encontramos ainda ali um ideal de belo, uma representação que achamos bonito, tal como o podemos ver num quadro de Vermeer ou numa natureza de Monet. Encontramos aí uma representação substantiva de belo, ainda que saibamos que essa aquisição do belo se fez pelos valores sensoriais, algo a que acedemos de uma forma diversa quando tentamos definir o Bem ou a Verdade.

Quando falamos do belo como experiência sensorial perguntamo-nos como essa aquisição se faz em cada um de nós. É pela educação, ou apenas por algo que cada um de nós pode ou não ter incentivado como uma procura. As crianças são um exemplo muito significativo, dessa forma de encontrar um modo de comunicação, como se essa observação fosse um diálogo entre nós e a arte, ou com a simples observação de uma paisagem, da leitura de um livro, algo a que poderíamos chamar uma Graça. O belo que se apresenta nessas dimensões, é como algo que está para lá da compreensão.

O que compreendemos num templo budista? Podemos sobre isso dar aquela resposta que João Bénard da Costa (1) contava uma história interessante, a de que uma criança ao ler excertos dos Lusíadas dizia, "Eu não percebo nada disto, mas isto é tão bonito". E talvez que em muitas circunstâncias o belo seja não só o que ultrapassa a compreensão, ou que está para além dela, mas seja também uma forma de encontro. Um encontro com algo de maravilhoso e que se realize pela incompreensão.

A visita a um templo oriental, como o templo dourado em Kyoto provoca um sentido diferente de perceção do espiritual, mas ainda assim achamo-lo belo. E, todavia compreendemos a sua funcionalidade? Não a percebemos e talvez seja isso que o belo seja, o que não se percebe tão bem, ou se percebe menos e, justamente porque a compreensão é do nível do mistério. Podemos visitar o Epidauro, conhecer as características técnicas daquele espaço, mas a transcendência pode não nos contemplar. E assim o que fazemos é o estudo da Estética, em que relacionamos a representação do belo com as ideias filosóficas de um tempo. E aqui temos muitas possibilidades.

Desde os Gregos que a ideia de belo evoluiu. A sabedoria foi a primeira forma de belo, foi nas palavras dos poetas que ela primeiro se definiu, com o que conhecemos da obra de Homero e Hesíodo.
O belo relaciona-se com essa dimensão essencial de todos, a vida ainda. Como a podemos alimentar? Com que palavras? Com que sabedoria habitaremos a vida e a sua essência, o seu coração? Como a entendemos entre uma ideia secular de destino, um grito de ar, de visão entre momentos escassos, esse nada que varia entre promessas e nenhuma crença, apenas um fio de escuro. Parece pois essencial ter algum pensamento, descobrir na beleza uma sabedoria para a construir, para a edificar. A palavra sabedoria conduz-nos à ideia de uma aprendizagem.

Sophia criou sem dúvida uma ideia de belo que retomava valores clássicos, mas que os afirmava em novos tempos. Fazia a ligação entre o Belo e o Bem. Com ela a experiência estética transforma-se numa experiência ética e deu-nos essas palavras essenciais, a da relação justa entre as coisas e os homens. É dessa construção de um valor inteligível da vida, a que o belo se encontra associado. É dessa viagem desde os Gregos aos inícios da modernidade que aqui tentámos falar durante alguns  meses.

(1) João Benard da Costa, Ciclo de conferências "Ecce Homo", Lisboa, Maio de 2007.
Imagem - Teatro do Epidauro - séc. IC a. C., civilização grega, nas margens do mar Egeu. 

A representação do belo - [I]

"O que é belo há-de ser eternamente uma alegria, e há-de seguir presente.  Não morre; onde quer que a vida breve nos leve, há- de nos dar um sono leve, cheio de sonhos e de calmo alento." (1)

"O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!", foi uma ideia que desenvolvemos, com a construção de um conjunto de recursos sobre as ideias e a representação artística em determinados períodos. Fomos deixando alguns recursos sobre essa relação na civilização grega, no período medieval, no Renascimento, no Iluminismo e terminámos com algumas leituras sobre o Sublime. Nos dois posts finais, dois pequenos textos sobre o Belo em si, ou seja como poderíamos abordá-lo de um modo mais genérico, como ele poderia ser pensado. É um ponto de chegada e um ponto de partida. 

Os artistas e criadores em diferentes épocas tiveram motivações diversas. Uma das suas fortes motivações foi ainda assim o prazer das obras apreciadas. A procura do belo e a tentativa de atingir um nível de perfeição conduziu muitas criações. Definido como "gracioso", "bonito", "maravilhoso", o belo muitas vezes se identificou com o bom. Na nossa expressão diária muitas vezes o que definimos como belo é o que nos agrada ou que desejamos ter.

Muitas vezes associamos o belo ao bom, ao que transmite um ideal, que pode estar associado a um mito, ou a um herói. Essa ideia pode ser conhecida ou identificada como bom, mas pelas circunstâncias de sofrimento desses heróis, ela não se transforma num desejo nosso.

Esse sentido de bem afasta-se das nossas opções. Existe pois uma diferença crucial entre o Belo e o Desejo.

O belo visto numa obra de arte é algo que não suscita o nosso desejo, mas algo que existe por si, como representação bela de algo que muitas vezes possa o não ser, como em algumas situações da natureza. É desse belo, sentido e admirado numa cultura que aqui falámos. O Belo exprimido na Arte, mas também pela representação da natureza, pois esta foi em muitos momentos a representação do Belo. 


Por vezes representações de uma época podem ser consideradas belas, ainda que de contornos morais duvidosos. Falámos aqui da evolução da beleza tendo em atenção que ela nunca foi um absoluto e evoluiu ao longo da História nas suas representações mitológicas, da natureza e da visão da sociedade e dos seus elementos. E há naturalmente que reconhecer que muitas vezes, uma mesma época criou diferentes ideias de belo, de acordo com a sua própria evolução cultural.

O belo é umas das áreas em que a Estética, como disciplina tentou definir um conjunto de conceitos evolutivos relacionando as ideias, a cultura, o social e a representação de formas diversas pela expressão artística. A Estética foi já lida de muitos modos e talvez a mais interessante seja aquela que nos diz que ela é uma forma sensível de conhecer, algo como uma alternativa à razão. Os objetos estéticos criam em nós formas de sentir. É consensual que o belo se associa muitas vezes ao que agrada, ao que dá uma satisfação capaz de um entusiasmo. O belo tem si as suas próprias formas de beleza, ou somos nós como observadores a construir um conceito?


Quando entramos numa igreja românica, ou numa catedral gótica, ou num templo budista a beleza emerge como uma realidade. Esses são espaços de beleza.

A primeira pergunta a fazer é por que chamamos belos a esses espaços e por que razão os espaços de oração e recolhimento são portadores de uma ideia de Beleza?
A segunda questão pertinente é a de reconhecer que num livro como a Bíblia está ausente a formulação de belo. A única aparição da ideia de belo refere-se ao reino de Salomão e a sua comparação com os lírios do campo. A única referência de belo nas Escrituras Sagradas é uma referência natural e relativo a uma dimensão espontânea.
A terceira questão que importa fazer, há algo de imutável no belo, há nele algo de permanente?

 (1) Kohn Keats. (1841). "Endymion", in The poetical works of John KeatsLondon: William Smith.
Imagem - Estela grega de uma criança, séc. V a. C.; Dartmouth College's Hood Museum; The Onassis Cultural Center in New York

quarta-feira, 8 de março de 2017

Conteúdos na rede - A representação do belo - [1400/1500] (6)

Na construção e representação do belo, a pintura entre Quatrocentos e Quinhentos trouxe uma evolução à ideia já existente da admiração da beleza. Esta deixou de aparecer como uma representação das partes admiradas para se constituir na Beleza supra-sensível. Essa beleza, ou esse sentido do belo atingiria uma dimensão mais elevada. Essa natureza do belo estaria presente nas figuras humanas, mas também na própria natureza. Uma das figuras que ajudou a definir essa representação do belo, essa beleza supra-sensível foi Marsílio Ficino, uma das figuras do neoplatonismo desenvolvido em Florença, na 2ª metade do século XV.
Fonte: História da Beleza. (2005). Umberto Eco. Lisboa:Difel.
Imagem – Sandro Boticelli, Alegoria da Primavera, (pormenor),c. 1478, Florença, Uffizi.

A pintura entre Quatrocentos e Quinhentos propõe uma nova concepção de beleza. Tenta ultrapassar a concepção de Beleza definida como proporção e harmonia e tenta juntar a sabedoria dos clássicos, reordená-la dentro de um sistema inteligível que seja portador do simbólico e harmonizá-la com o imaginário cristão. É uma concepção do Belo assente num grande valor simbólico. 
Fonte: História da Beleza. (2005). Umberto Eco. Lisboa:Difel.
Imagem – Sandro Boticelli, Alegoria da Primavera, (pormenor),c. 1478, Florença, Uffizi.

A Beleza supra-sensível:
Na verdade, não há beleza mais autêntica do que a sabedoria que encontramos e amamos em qualquer indivíduo, prescindindo do seu rosto que pode ser feio e, não olhando precisamente para a sua aparência, procuramos a sua beleza interior. Mas, se ela não te comove a ponto de chamares belo a esse homem, nem sequer olhando para o teu íntimo poderás perceber-te como coisa bela. Nesta atitude, em vão a procurarás, porque estarias a procurá-la numa coisa feia e não pura. Por isso, estes nossos discursos não se dirigem a todos; mas lembra-te deles, se também tu te consideras belo”.
Plotino (século III), Enéades, V, 8
Imagem – Ticiano, Vênus de Urbino, 1538, Galeria de Uffizi, Florença.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Conteúdos na rede - A representação do belo - [1400/1500] (5)

A beleza mágica da pintura entre Quatrocentos e Quinhentos passou pelas ideias de modernismo de Alberti e pelo seu Tratado de Pintura, onde surge uma teoria perspectivista da arte de olhar.
Diz Alberti, “a pintura, não será outra coisa que a intersecção da pirâmide visual segundo uma distância dada, estando o centro da visão colocado a luzes dispostas numa certa superfície representada com arte por meio das linhas e das cores”.
Alberti marcará o Renascimento e dará às ideias da cultura clássica um novo alvorecer. Com ele floresce essa luz criada pela magia da arte europeia entre Quatrocentos e Quinhentos, com destaque para a pintura, onde o quadro é uma janela aberta. Dentro da janela o espaço multiplica os planos, onde a organização se faz segundo uma sucessão de aprofundamentos que se integram e se modelam pela luz e pela cor. Nesta pintura que se desenvolve entre Quatrocentos e Quinhentos o papel da pintura flamenga e da pintura a óleo são indissociáveis neste movimento. É esse tratamento a óleo que permite construir um efeito de magia no sentido em que as figuras parecem envolvidas e mergulhadas numa luminosidade que excede o natural.
Fonte: História da Beleza. (2005). Umberto Eco. Lisboa:Difel.

#Abelezaentrequatrocentosequinhentos
#Obelocomorepresentação

Imagem – Jan Van Eyck, Virgem do chanceler Rolin, c. 1435, Museu do Louvre, Paris

Conteúdos na rede - A representação do belo - [1400/1500] (4)

A beleza mágica da pintura entre Quatrocentos e Quinhentos foi construída primeiramente como um diálogo entre a imitação da natureza e a procura de uma perfeição inventiva. Para este enobrecimento do belo como recriação da natureza deveu muito a dois tipos de invenções. 
A primeira foi o aperfeiçoamento das técnicas de representação da perspectiva desenvolvido por Brunelleschi Imitação e invenção. Reprodução da realidade observada e renovação da mesma pela visão do observador. Filippo Brunelleschi foi arquitecto, escultor renascentista e concluiu a cúpula da catedral de Santa Maria del Fiore em Florença.

#Abelezaentrequatrocentosequinhentos
#Obelocomorepresentação

Imagem – Cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, Forença, séc. XV.

Conteúdos na rede - A representação do belo - [1400/1500] (3)

Ainda com o jogo de dualidade entre a imitação e a inventividade do período entre quatrocentos e quinhentos. E ainda as palavras de um mestre, alguém que encontrou a luz, espelhada numa forma de criação.
“Queto que os jovens […] aprendam a desenhar bem os contornos das superfícies e se exercitem como nos primeiros elementos da pintura; depois, aprendam a juntar as superfícies e aprendam cada forma distinta de cada membro, e mandem para a mente qual é a diferença que existe em cada membro. […] E, assim, o pintor examina todas as coisas que, estando num membro a mais ou a menos, os faz diferentes. E note ainda quando vemos que os nossos membros infantis são redondos, quase feitos ao torno e delicados; na idade mais provecta são ásperos e angulosos. Assim, o pintor estudioso conhecerá todas estas coisas a partir da natureza e examiná-las-á consigo mesmo muito assiduamente, de modo que cada um esteja, e continuamente estará, desperto com os olhos e com a mente nesta investigação e obra.”
Leon Battista Alberti, Da pintura, 1435

#Abelezaentrequatrocentosequinhentos
#Obelocomorepresentação

Imagem –Domenico Ghirlandaio, Retrato de mulher jovem, C. 1485, Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa.

Conteúdos na rede - A representação do belo - [1400/1500] (2)

O poder do pintor:
O pintor é dono de todas as coisas que podem cair no pensamento humano; porque, se ele desejar ver belezas que o apaixonem, será senhor de gerá-las e, se quiser ver coisas monstruosas que espantem ou que sejam histriónicas ou ridículas ou verdadeiramente lastimáveis, ele é seu senhor e criador. E, se quiser gerar sítios desertos, lugares sombrios ou frescos nos tempos quentes, figurá-los-á e também lugares quentes nos tempos frios. Se quiser vales, o mesmo; se quiser dos altos cumes dos montes descobrir uma grande campina e se quiser depois ver o horizonte do mar, será capaz disso; e, assim também se, dos fundos dos vales, quiser ver os altos montes, ou dos altos montes, os fundos vales e as praias. E, com efeito, o que está no universo  por essência, presença ou imaginação, ele o tem primeiro na mente e, depois, nas mãos que são de tão grande excelência que ao mesmo tempo criam uma proporcionada harmonia num só olhar como as coisas fazem.
Leonardo da Vinci, Tratado de pintura, VI, 1498

Imagem - Leonardo da Vinci, A viagem dos rochedos, C. 1482, Paris, Museu do Louvre

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (12)


O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

Temos visto que os pitagóricos redefiniram o conceito do número. Uma das relações que foram estabelecidas foram as relações matemáticas com os sons musicais e que proporções se definiam entre os intervalos dos sons e ainda a relação entre o comprimento de uma corda e a altura de um som. A ideia do belo também se representa pela ideia de harmonia musical. Boécio na Idade Média confirmou esta ideia de harmonia dos pitagóricos lembrando uma observação feita por Pitágoras. Num dado dia, um ferreiro colocara martelos de diferentes pesos que criavam sons proporcionais a essa dimensão. Boécio é uma das fontes de registo das ideias dos pitagóricos. Sabemos que com eles a música influenciava diferentes estados de espírito. O ato de adormecer e acordar era realizado pelas pitagóricos como forma de verificação a modulação do som e o efeito em cada pessoa. Talvez nem sempre o percebamos, mas a representação do belo também se faz pela música e por esta ideia pitagórica de proporção.
Fonte: Umberto Eco. 2004). História da Beleza. Algés: Difel.

A representação do belo - Grécia (12)


O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

É por todos conhecida a ligação entre a civilização grega e o Renascimento. Os pitagóricos fizeram do número uma grandeza que permitiu evoluir do conceito aritmético ao geométrico e espacial. Inventaram o tetraktys que é na verdade um triângulo em que o ponto central está equidistante dos pontos que formam o triângulo equilátero, que significa com três lados iguais. É possível dar continuidade à série de cada ponto, de modo que se obtem uma figura, um "reticulado potencialmente infinito". Os pitagóricos descobriram nestas harmonias geométricas uma forma de belo, um sentido inteligível do universo, pois as harmonias aritméticas tinham correspondência em harmonias geométricas.
Imagem - Michelangelo Buonarroti, Estudo para a sala dos livros raros da bibioteca Laurenziana, Florença, c. 1516.

A representação do belo - Grécia (11)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

A arte helenística é o último momento da expansão grega. Podemos situá-la entre os séculos IV e I a.C., ou seja entre a morte de Alexandre e a ocupação romana. Nesta fase a difusão da civilização grega fez-se do Mediterrâneo oriental à Ásia central, tendo as conquistas de Alexandre sido muito relevantes nesta expansão. Período de grande apogeu da civilização grega com referências na ciência tão significativas como Euclides ou Arquimedes. Foram fundadas muitas cidades tão importantes como Alexandria ou Antioquia. Se a matemática se desenvolveu no helenismo, igualmente assistimos ao florescimento da astronomia, da medicina, da geografia, da gramática e da literatura. Também na filosofia se observa o aparecimento dos estóicos e dos epicuristas, ou do neoplatonismo. Nomes como Demócrito ou Heráclito são da maior importância para aquilo que foi a explosão grega. A arte helenista procurou o valor expressivo do sublime. Procurou cultivar conceitos como o expressionismo, o naturalismo numa apresentação de intensidade dramática. A escultura grega do período helenista tenta encontrar a representação de diferentes formas de realidade. 
Para isso socorreu-se do Tratado do Sublime de Longino, onde os sentimentos prevaleciam sobre a representação física. A arte grega helenística privilegiou assim o pathos sobre o ethos. O sublime que os gregos buscaram era já não uma ideia de beleza, mas um sentimento, e nesse sentido transcende a própria noção de belo. A escultura desta fase abre-se à imaginação do observador e ao mesmo tempo procura revelar sentidos de espanto e inquietação.
Imagem – Vénus de Milo: datada de 100-190 a.C, feita em mármore, tem altura de 198 cm. Parece muito óbvia a influência de Praxíteles e Lisipo na sua construção. A Vénus de Milo deve esse nome ao fato de ter sido descoberta na ilha grega de Milos, no século XIX. Está em exposição no museu do Louvre.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (10)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

Boa noite! Fiquem bem!
"Está já pronto outro vinho, que garante que jamais
abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.
No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;
a água está fresca, doce e pura.
Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,
carregada de queijo e de pingue mel.
Ao meio, o altar está todo coberto de flores.
A música festiva domina o ambiente.
Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,
com ditos de bom augúrio e palavras puras.
Depois de fazer as libações e preces para procederem
com justiça — pois isso é a primeira lisa —
não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa
sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso."
#Obelocomorepresentação
Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.) - Hélade, Antologia de Cultura Grega. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.
Imagem: Apolo e as Ninfas, de François Girardon (1666-73), na Gruta de Apolo, em Versalhes
Música: Second Delphic Hymn to Apollo

A representação do belo - Grécia (9)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

Para Platão a beleza não é algo que exista em si, como um elemento físico. Ela existe autonomamente, distinta do suporte físico. Em Platão a beleza não está vinculada a um determinado objecto, ela apresenta-se brilhante em qualquer lado. 

A beleza não se identifica com o que se vê, pois o corpo é para Platão uma prisão, uma caverna que aprisiona a alma. Assim o belo necessita de uma aproximação sensível e deve ultrapassar a visão do intelecto. Essa superação faz-se por uma aprendizagem baseada na dialéctica, que nos é trazida pela filosofia. Esta abordagem significa que nem todos podem ver a verdadeira beleza. A arte que procura representar essa beleza, a arte imitativa é uma cópia falsa, não revela uma autêntica beleza. 

Para Platão a observação das artes imitativas torna-se prejudicial para os jovens porque lhes cultiva uma aparência. O essencial para a compreensão e acesso ao belo seria proporcionar a beleza das obras geométricas que se baseia na proporção e numa concepção matemática do universo. Estas ideias irão influenciar o pensamento dos pitagóricos.
#Obelocomorepresentação


Imagem: Afrodite de Cápua: Escultura do período clássico (século IV a.C,) aqui como cópia romana do século II; Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. 
Fonte: Umberto Eco. (2004). História da Beleza. Lx: Difel.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (8)


O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

A beleza é uma ideia, uma abordagem de valores e uma representação. Não se pode falar dela sem falar naqueles que pensaram o seu sentido, as suas possibilidades, as suas possíveis faces, os filósofos. Se para os poetas pré-Homéricos o mar e a mulher constroem a associação com o que é belo e se com Homero é o natural que se associa à beleza, é com Sócrates e Platão que vemos essa construção melhor se definir.

Sócrates, de acordo com o seu testemunho em Memorabilia de Xenofonte define a praxis artística em três categorias: a beleza ideal (identificada pelas suas diferentes partes), a beleza espiritual (exprimida pelo olhar e reveladora da alma humana, visível nas esculturas, onde os olhos eram pintados para serem mais verdadeiros) e a beleza útil (a que se torna funcional). 

Platão criará duas concepções da beleza que se desenvolverão ao longo da História. Justamente a beleza como harmonia e proporção das partes (derivada das ideias de Pitágoras) e a beleza como esplendor e que vemos expressa em Fedro e que influenciarão pensamento neoplatónico.
Imagem:
sólidos platónicos da De Divina proportione de Luca Pacioli, 1509, Biblioteca Ambrosiana, Milão.

#Obelocomorepresentação
Fonte: Umberto Eco. 2004). História da Beleza. Lisboa: Difel.

A representação do belo - Grécia (7)


O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

A escultura grega procura a representação de formas humanas em que um pequeno fragmento de movimento ou uma seção de uma ação encontra um equilíbrio. Os seus valores criativos residem na simplicidade expressiva, mais do que nos pormenores.

O Laoconte do período helenístico é uma exceção que não caracteriza o essencial da escultura grega e do seu ideal de belo.

"Como a profundidade do mar que permanece sempre imóvel, por mais agitada que esteja a sua superfície, a expressão das figuras gregas, embora agitadas por paixões, mostra sempre uma alma grande e repousada.



 Não obstante os sofrimentos mais atrozes, esta alma transparece no rosto de Laocconte e não só no rosto. A dor que mostra em cada músculo e em cada tendão do corpo – e que, só de olhar para o ventre convulsamente contraído, sem nos preocuparmos com o rosto nem com outras partes, quase acreditamos que nós próprios sentimos – não se exprime, de modo nenhum com sinais de raiva no rosto e na atitude. 

O Lacoonte não grita horrivelmente como no canto de Vergílio, pois o modo como tem a boca aberta não lho permite; antes lhe pode sair um suspiro angustiado e oprimido como descreve Sadoleto. A dor do corpo e a grandeza da alma estão distribuídas por todo o corpo e parecem manter-se em equilíbrio. Laocoonte sofre, mas sofre como o Filoctetes de Sófocles: o seu padecer toca-nos o coração, e nós desejaríamos poder suportar a dor como este homem sublime a suporta."

#Obelocomorepresentação

Johann Joachim Winckelmann, Monumentos antigos inéditos, I, 1767
Imagem: Laocconte – Roma – Museus Vaticanos;A autoria da obra é atribuída a Agesandro, Atenodoro e Polidoro, três escultores da ilha de Rodes. A escultura foi apenas descoberta no século XVI.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (6)



O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

“É a coisa mais bela da terra, uma fila de cavaleiros” diz. “Não, de infantes”. “Não, de navios”. E eu penso, belo é o que se ama. Fazê-lo compreender é coisa muito fácil, para cada um. Helena, que via a Beleza de muitos, escolheu como seu homem e o melhor aquele que apagou a luz de Tróia: esqueceu a filha, os pais, e foi para longe, para onde quer Cípris, porque o amava. […] Quem é belo, é-o enquanto está debaixo dos olhos, quem também é bom, é-o agora e sê-lo á depois”.

Safo (séculos VII-VI a.C.)

A Kalokagathía é um conceito que caracteiza um ideal de belo da civilização grega que procurava harmonizar a alma com o corpo, a forma e o espírito.

#Obelocomorepresentação

Imagem: Auriga, século V a.C., Museu Arqueológico de Delfos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (5)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

A beleza é uma ideia, uma abordagem de valores e uma representação. Não se pode falar dela sem falar nos seus instrumentos, os artistas. A ideia de belo define-se melhor com a aproximação do século V a.C., pois a ascensão económica e cultural de Atenas permite-lhe ter uma noção mais clara do seu sentido estético. A vitória sobre os Persas no tempo de Péricles permite desenvolver de modo significativo as Artes, e em destaque a pintura e a escultura.

A reconstrução da cidade, dos seus templos era também uma forma de revelar um orgulho do poder ateniense e permitiu dar um incentivo ao trabalho dos artistas.
A civilização grega tem em si outras razões para essa explosão artística. A técnica das artes figurativas gregas é de enorme alcance. A arte grega superou em muitos aspectos a arte da Terra dos Faraós. A arte grega faz uma aproximação entre a sua representação e a vida dos gregos. Tal não acontecia no Egipto dominado por uma arte virada para a abstração e organizada de uma forma muito disciplinada. A arte grega é dominada pela ideia de subjectividade. Não existe na representação pictórica grega a exactidão das formas observadas. A escultura procura a expressão de um belo que se observe nos corpos representados. Os grandes nomes da escultura grega (Fídias, Míron e Praxíteles) procuram realizar um equilíbrio entre uma representação que seja realista, nas formas humanas e o respeito por um cânone (kánon) específico.

A escultura grega não constrói uma abstração, uma idealização de belo, mas apenas tenta encontrar o que pode ser classificado como uma Beleza ideal. A escultura grega tenta uma síntese em corpos vivos, onde o belo conjuga uma ideia de corpo e alma. A Beleza na Grécia Clássica aspira a representar o esplendor do corpo numa estrutura que projecte igualmente a bondade, os valores do espírito. Esse ideal, conhecido com o nome de Kalokagathía teve a sua expressão maior nos versos de Safo e nas esculturas de Praxíteles.

A escultura grega não busca os pormenores da representação, nem representa com grande preocupação objectos inorgânicos. Ela revela com grande preocupação sua uma representação de formas humanas. Nestas, um pequeno fragmento de movimento ou uma seção de uma ação encontra um equilíbrio e por isso a sua essencialidade. Esta reside na simplicidade expressiva, mais do que nos pormenores. O Laoconte do período helenístico será uma das exceções a este quadro e ao seu ideal de belo.

#Obelocomorepresentação

Imagem: Fídias, Métopa do Pártenon, 447-432 a.C. Londres, Museu Britânico

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A representação do belo - Os textos (2)

Belo é o que agrada
Téognidas (séculos VI- a.C.)
Elegias, I, vv. 17-18
Musas e Graças, filhas de Zeus, vós que um dia cantaste nas bodas de Cadmo a bela palavra: "O que é belo é amado; o que não é belo não é amado." E correu nos lábios divinos.

Belo é o que é sempre querido 
Eurípedes (século V a.C.)
Bacantes, III, vv. 880-884
O que é a sabedoria ou que dom dos deuses é mais belo entre os homens do que estender a mão sobre a cabeça do inimigo vencido?
O que é belo é sempre querido.

Olhar
Platão (séculos V-VI a.C.)
Simpósio, 211e
Portanto, o que deveríamos nós pensar - disse - se, acontecesse de alguém ver o Belo em si absoluto, puro, não misturado e, de modo nenhum, contaminado por carnes humanas e por cores e por outras pequenezes mortais, mas pudesse contemplar como forma única o próprio Belo divino? Ou, porventura, tu considerarias - disse - que pouco valeria a vida de um homem que olhasse para lá e contemplasse aquele Belo com aquilo que se deve contempla e permanecesse unido a ele? Não pensarás, antes - acrescentou -, que, aqui, olhando para a beleza somente com aquilo com o que é visível, esse tal gerará não já pura imagens de virtude, pois que não se aproxima de uma pura imagem de belo, mas dará à luz virtudes verdadeiras, já que se aproxima do Belo Verdadeiro? E não acredites que, gerando e cultivando a virtude verdadeira, será querido aos deuses, e será, como nunca outro homem foi, também ele imortal?
Estas coisas, Fedro, e vós outros, disse-me Diotina, e eu fiquei convencido. E, assim persuadido, tratei de persuadir também os outros três que para atingir este objectivo não se poderia facilmente encontrar para a natureza humana melhor colaborador que Eros.

Imagem: Terracota Panathenaic ânfora
Ânfora para celebrar um tipo de jogos que aconteciam em Atenas, onde se faziam rituais estando associados a jogos que nunca tiveram a dimensão dos Jogos Olímpicos. Eram momentos em honra de Atena e de Poseidon. A ânfora era utilizada com óleo das melhores oliveiras de Ática e dada ao vencedor dos jogos. Cada ânfora obedecia a uma forma padronizada onde encontramos uma ilustração de uma competição, com predomínio para as corridas a pé. Euphiletos é um pintor associado a este tipo de cerâmica.

A representação do belo - Grécia (4)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios

E nos seus olhos cegos e vazios
Boaiava o rasto branco dos navios
.


(Andresen, S. de M. B. (2005). "A Estátua" in No tempo dividido. Lisboa: Caminho. pág. 40.


#Obelocomorepresentação

Imagem - Discóbolo de Míron - Séc. V a. C.

A representação do belo - Grécia (3)


O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

"Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido". 

Expressão de Hesíodo nas bodas de Cadmo e Harmonia em Tebas e subscritas por Eurípedes. 

A civilização grega até Péricles não tinha construído ainda uma estética que formulasse uma ideia sistematizada de Beleza. Existem diferentes ideias sobre a Beleza.


O oráculo de Delfos à mesma pergunta respondia: "O justo é o mais belo". A Beleza está pois associada a outros valores. Não ficou paralisado Menelau na derrota de Tróia pelo belo seio de Helena? 

A Beleza desenvolver-se-á na Grécia Clássica como os elementos perceptíveis dos sentidos, mas também a revelação de qualidades de carácter. A Beleza entre os Gregos desenvolveu-se de modo diferente consoante falamos dos hinos escritos, das lendas reveladas, da poesia ou da escultura.

#Obelocomorepresentação

Imagem: Fídias, Métopa do Pártenon, 447-432 a.C. Londres, Museu Britânico

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A representação do belo - Grécia (2)

O belo na representação da arte, a fruição estética da criação!

Kouré é a designação para pequenas estatuetas que pertencem ao período arcaico da civilização grega, o que antecede o período clássico. As estátuas de Korés adotam uma atitude convencional. Elas apresentam a oferenda de um fruto, de uma taça ou de um pássaro. Mas cada escultura se revela individualizada pelo estilo do artista e pelo momento da sua criação no decorrer da evolução da escultura arcaica. 

A estatuária da Koré tem um aspeto majestoso, revelando robustez. As Koré designavam jovens mulheres e tinham sempre na representação uma oferenda que podia ser uma ave, ou um pássaro que se encontrava posicionado perto do peito. Existe uma rigidez plástica e uma revelação do tipo de vestuário usado. 

As Korés eram estatuetas oferecidas durante o período arcaico à deusa Atena e encontram-se diversas na Acrópole de Atenas. Em algumas Korés da fase arcaica encontraram-se algumas representações que levaram alguns arqueólogos a pensar tratar-se já de uma imagem de deusas, com destaque para as que se relacionavam com a natureza, como Artémis deusa da caça. As Korés são uma das primeiras formas para observar a representação humana e a ideia de beleza que a civilização foi construindo, embora ela tenha mudado significativamente no período clássico.

#Obelocomorepresentação

Imagem: Koré de Eutidyco (h. 490a.C). Museu da Acrópole, Atenas.